Listas

Listas.

Desde 2018 elaboro uma com os livros que li durante o ano, com uma pequena descrição sobre eles. A ideia surgiu por acaso, com o objetivo de fixar na agenda um tempo para me dedicar à atividade. A partir disso, comecei a elaborar textos de poucas linhas sobre cada um deles e, quando vi, no final do ano, estava enviando como uma espécie de presente para meus amigos e familiares. 

Sim, trato essas listas como um presente. É algo realmente muito pessoal, que compartilho como quem sai na rua, encontra um amigo ou vê algo curioso acontecer, e que, ao voltar para casa, diz: 

- Ana, você nem sabe com quem encontrei hoje.

- Com quem,  Érico?

- Com um cara que queria detonar uma bomba numa ponte na Espanha!

- QUE HORROR! E você ligou pra polícia?!

- Não, mas marquei a página. Já sei o nome dele. Ele é americano, vai lutar nas Brigadas Internacionais contra o Franco. Será que aviso o consulado? Eu não acho o Franco um cara muito legal... quem sabe deixo assim, vai que ele nem explode coisa alguma.

Com o perdão do anacronismo - ou do delírio, mesmo -, é algo mais ou menos assim que acontece. Às vezes acabo me envolvendo com algumas histórias de uma tal maneira que é como se elas estivessem acontecendo ao mesmo tempo da minha leitura - e talvez estejam. É uma vontade legítima de contar, passar adiante que sensações eu tive, o que vi, como ouvi. Isso, claro, não acontece sempre, mas é como uma música que a gente escuta, gosta e manda para alguém, com a esperança de que ela também encontre alguma identificação.

No diálogo acima, que talvez tenha realmente acontecido, eu falei um pouco do enredo de "Por quem os sinos dobram", do Ernst Hemingway. Li em 2018, e é uma obra considerada fundamental desse escritor. Ela trata, basicamente, da história de Robert Jordan, um americano que, ao se incorporar as fileiras das "Brigadas Internacionais" na Guerra Civil Espanhola, torna-se um especialista em explosivos. E, nesse seu trabalho, ele terá a difícil missão - e talvez derradeira - de destruir uma ponte, a fim de impedir os avanços das forças do General Franco

Tinha uma certa resistência pelo texto. Durante a escola havia lido "O Velho e o Mar", do mesmo autor, e só tinha achado muito chato. Talvez, hoje, não sendo tão moço, ache um livro sobre um pescador preso em um barco mais divertido. De todo modo, o que importa é que a minha relação com os "sinos" foi completamente diferente. 

Tentando recuperar um pouco do que vivi naquele tempo - a partir da minha lista de 2018 -, vejo que ainda hoje consigo me lembrar da aflição sobre o que estava prestes a acontecer. Se aquilo era uma boa ideia, se daria certo, se não havia vidas demais em risco. Não sei exatamente a razão disso, mas o livro me traz alguma sensação de sol de outono, com as folhas caindo, o que tanto pode significar término, como renovação: é isso, talvez a graça do livro esteja na dificuldade de saber exatamente o que vai acontecer, se é possível ter esperança que a partir da bomba novos caminhos irão se abrir para os republicanos, ou se nos resta aceitar um desfecho que desde muito já sabíamos que seria trágico.

Enfim, ia falar de listas, mas acabei falando só de um livro que está numa delas. É um pouco disso que acontece: envio para os mais chegados, no final do ano, um pouco da minha relação com esses pequenos companheiros retangulares, e das histórias que eles me contam.

Nos próximos posts pretendo falar um pouco sobre a minha lista de 2018, e, quem sabe, aprofundar alguma coisa sobre ela.


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